Catadores e pescadores artesanais limpam a Baía de Guanabara durante o defeso

30-09-2021

Na última década, o Projeto UÇÁ foi a iniciativa que retirou o maior volume de resíduos sólidos dos manguezais do recôncavo da Guanabara.

Lixo retirado de um manguezal por catadores e pescadores

Nos próximos meses, catadores de caranguejo vão contribuir com a conservação da maior faixa contínua de manguezais do Rio de Janeiro. A operação LimpaOca é a iniciativa do Projeto UÇÁ que mobiliza pescadores artesanais para se tornarem agentes ambientais na limpeza da Baía de Guanabara na época do defeso, quando não se pode catar, transportar e comercializar o crustáceo. Em sua sexta edição, a operação desenvolvida pela ONG Guardiões do Mar — com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental — já coletou mais de 35 toneladas de resíduos em 28 hectares desse ecossistema.

Visando a proteção dos organismos aquáticos durante fases críticas de seus ciclos de vida, a operação LimpaOca oferece 90 bolsas de assistência financeira temporária paga aos pescadores profissionais artesanais da região do recôncavo da Guanabara durante os próximos 3 períodos de defeso. Esse é o período que as atividades de pesca são paralisadas para a preservação do caranguejo-uçá e essas famílias não têm outra fonte de renda ou possibilidade de exercer outra profissão.  

Após desenterrar o lixo da lama da foz de rios, nos limites da Estação Ecológica da Guanabara (ESEC Guanabara), os participantes da Associação dos Pescadores de Itambí – ACAPESCA (comunidade de Itambí, em Itaboraí) o transportam de barco para terra firme. Tudo é triado, pesado e quantificado por região trabalhada, importantes indicadores para a geração de novas políticas públicas. A Operação foi considerada referência nacional pela Plataforma EduCares do Ministério do Meio Ambiente, em 2014. 

“O Projeto UÇÁ, desde sua criação em 2012, vem prestando importante serviço ambiental para o macro ecossistema da Guanabara por meio de ações de restauração florestal e atividades de limpeza de manguezais, além de pesquisa e educação ambiental na disseminação de boas práticas. Com essa continuidade das ações nos seis municípios trabalhados da região (Maricá, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Guapimirim e Rio de Janeiro), pretendemos retirar mais 21 toneladas de resíduos em 12 hectares de manguezais”, afirma Gisa Machado, bióloga marinha, mestre em botânica e coordenadora geral do Projeto UÇÁ.

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A Baía de Guanabara está viva

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A Baía de Guanabara, um dos grandes cartões-postais do litoral brasileiro, possui uma hidrologia única, sendo cheia de contrastes. Desde o século XVI, a tradição pesqueira se faz presente nessas águas, assim como de seus rios navegáveis, de suas enseadas, recôncavos e manguezais. Os pescadores artesanais atualmente compõem a maioria do universo pesqueiro da região, que representam a participação em mais de 30% da produção estimada para todo o Estado do Rio de Janeiro. A operação LimpaOca nasceu das vivências de um desses catadores, o Adílio Campos de Itaoca (São Gonçalo), que indagou pesquisadores do projeto sobre o impacto do lixo nos manguezais na produtividade de sua atividade laboral. 

Estes ambientes são oportunos à retenção dos resíduos sólidos, que se acumulam sobre a lama e podem ficar presos nas raízes típicas de mangue. O risco à saúde dos manguezais é visto principalmente nos ambientes próximos aos grandes centros urbanos, com um forte impacto para a reprodução dos crustáceos e para os trabalhadores, expostos a diversos materiais cortantes e tóxicos. O lixo acumulado ainda ocupa áreas que deveriam estar disponíveis para instalação de novas mudas, para que haja a restauração natural do ambiente.

“O despejo de lixo e esgoto se torna gravíssimo por se tratar de uma área de berçário da vida, não só da Baía de Guanabara, mas da costa fluminense. É ali, nessa que é maior área de manguezais preservados do Estado do Rio, que inúmeras espécies habitam ou passam um período de suas vidas. Os manguezais fornecem ainda segurança alimentar, são filtros biológicos, proteção contra erosão e condições climáticas extremas e ainda tem vital importância socioeconômica, sendo útil, direta e indiretamente para mais de 7 milhões de pessoas que fazem parte da bacia contribuinte da Baía”, alerta Gisa Machado, do Projeto UÇÁ

Diminuir o impacto do consumo e descarte inconscientes de resíduos nos manguezais é apenas um dos diversos objetivos da operação LimpaOca. A atividade dissemina conhecimentos para esta parcela da sociedade que entende, na prática, que o manguezal além da importância ambiental é sua principal fonte de renda. Após a limpeza, se beneficiam de mais caranguejos para coletar, por terem respeitado o período de reprodução e ainda pela diminuição das mortes desses animais, que ocorre, muitas vezes, devido ao entupimento de suas tocas pelo lixo.

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Saiba mais sobre o Projeto UÇÁ 

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Desde 1998, a Ong Guardiões do Mar cria e atua em ações socioambientais que produzem conhecimento científico e mobilizam lideranças comunitárias e de povos tradicionais para a conservação de manguezais e combate ao lixo nos ecossistemas costeiros. É a realizadora do Projeto UÇÁ, com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, iniciativa que mais retirou resíduos sólidos no recôncavo da Guanabara na última década: restaurou 182 mil metros quadrados de florestas de mangue na APA de Guapi-Mirim, plantou mais de 64 mil árvores das três espécies de mangue e criou a Operação Limpaoca, que retirou 35 toneladas de lixo de 28 hectares deste ecossistema.  

Pioneira em educação ambiental inclusiva, foi vencedora do Prêmio Hugo Werneck (2017) e do Prêmio Firjan Ambiental (2020). Integra a Rede Águas da Guanabara – REDAGUA, a Rede Nacional de Manguezais – RENAMAN e o Movimento Viva Água – Baía de Guanabara. Para o período entre 2021 e 2024, atua em ações integradas com realização de serviços ecossistêmicos, educação ambiental e pesquisa em cinco municípios da região da Baía de Guanabara e em Maricá. Mais informações em facebook.com/projetouca/, no Instagram @projetouca e no Twitter @projetouca_.

Fonte: JABLOSNKI,S.; AZEVEDO, A; MOREIRA, L.; SILVA, O. Levantamento de dados da atividade pesqueira na Baía de Guanabara como subsídio para a avaliação de impactos ambientais e a gestão da pesca. Rio de Janeiro: IBAMA; 2002.

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