TECNOLOGIA DE COMUNICAÇÃO X COMUNIDADES TRADICIONAIS

14-02-2020

Quando trabalhamos com turismo de base comunitária precisamos entender o que é uma comunidade tradicional, qual é sua relação com o ambiente, e também seus processos para que possamos realizar o trabalho junto à comunidade de forma respeitosa. O impacto cultural acaba chegando a essas comunidades e pode interferir nessas culturas, mas é impossível não inserirmos a tecnologia de comunicação nesses processos. A criação de grupo de Whatsapp, perfil de Instagram e até mesmo de Facebook contribuem para a comunicação em rede e divulgação das atividades locais, mas acabam interferindo na forma com que essa comunidade se relaciona.

Povos e Comunidades Tradicionais são grupos culturalmente diferenciados que se reconhecem como tais possuem formas próprias de organização social, ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (DF 6.040/2000).

As “comunidades tradicionais” não são grupos socioculturais unificados, estão divididas em subcategorias como ribeirinhos, quilombolas, pomeranos, caiçaras e outros. Cada comunidade apresenta suas singularidades, com a delimitação de um território específico e uma estreita relação com o ambiente natural (VIANNA, 2008). No Rio de Janeiro, os grupos que mais encontramos são as comunidades caiçaras, quilombolas e ribeirinhas. A interdependência dessas comunidades com o meio faz com que sejam importantes fontes de preservação ambiental. Esse envolvimento com o ecossistema em que vivem fortalece os vínculos econômicos, sociais, espirituais, culturais e ecológicos de seus membros (DIEGUES & VIANA, 2004).

No encontro da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM) que ocorreu em 2016, a preocupação com os jovens, perpetuação da cultura e valorização do conhecimento dos anciões foi tema muito comentado, listado inclusive como uma prioridade para o desenvolvimento de ações. Estudos evidenciaram que jovens dessas comunidades não se interessam mais pela cultura local e que a modernidade contribui para o aumento da criminalidade e uso de drogas. Este relato tem sido observado em diversas comunidades, fato preocupante, pois interfere na transmissão da cultura aos mais jovens por meio da tradição, que é a garantia da perpetuação daquela comunidade como tradicional (BERTOLO, 2015),

É preciso uma nova leitura no uso da tecnologia nas tradições populares. A globalização, softwares avançados, novos chips para celulares, a quebra das fronteiras desencadeia um processo de transformação nas tradições dessas comunidades. Encontramos como saída a refuncionalização nos produtos das tradições populares para sobreviverem no mundo da concorrência, automação e tecnologia da comunicação e atentarmos aos prós e contras no uso dessas ferramentas em confronto com as tradições (LÓSSIO, 2004). É importante reconhecer os malefícios do uso da tecnologia para dosar as consequências e não acreditar que a essas possam resolver todos os problemas, mas precisamos salientar que esta é sim uma ferramenta que pode ajudar muito, quando seu uso for consciente, evitando danos para as próprias populações e comunidades tradicionais.

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