Expedição mostra diferenças entre manguezais saudáveis e degradados pela ação humana.

16-09-2019

Jornal da Globo, em parceria com o Globo Natureza, explica a relação entre o mangue – berço de muitas espécies – e a pesca no litoral paulista.

Se você ouve a palavra “mangue” e só pensa em lama e caranguejo, pense outra vez. O mangue é um berço de vida, uma floresta à beira-mar cheia de segredos escondidos. É nele que espécies marinhas se alimentam e se reproduzem. Duas vezes por dia, as marés completam o ciclo da natureza.

Os olhos treinados do catador de caranguejo enxergam tudo isso e até um pouco mais. “Ele seria maior se tivesse água salgada”, diz o pescador Reginaldo Mandelli. “Não fica bem esverdeada a cor dele. Ele tem um amarelão debaixo do corpo.”

A mudança de cor preocupa o pescador, que trabalha há mais de 20 anos nos manguezais de Iguape, litoral sul de São Paulo. “A gente trabalha com o caranguejo macho. Então ele não consegue crescer muito, devido a água doce.”

A água do mangue é salobra, ou seja, tem sal, mas em Iguape deveria ter mais. É que tem muita água doce que vem do rio Ribeira por um canal chamado Valo Grande.

De acordo com a professora de ecossistema de manguezal da UNESP, Marília Cunha Lignon, o canal foi aberto no século 19 e era para passar uma canoa, transportar o arroz do rio Ribeira dessa região para o porto de Iguape. Hoje, ele tem 300 metros de largura.

Marília estuda há quase dez anos os mangues de Iguape. “A gente vê bastante verde, mas isso engana, não é um bom sinal assim.” São plantas invasoras, que não deveriam existir no mangue. Nasceram 16 espécies e com isso não dá para ver a lama. As sementes de plantas nativas perderam espaço.

“Zero de salinidade. Isso é uma característica de rio. O rio não tem sal. A lama do mangue sempre tem sal, porque o mangue recebe água das marés o tempo todo, duas vezes ao dia. isso faz com que a lama seja salgada, um pouquinho salgada. Zero significa que é como se a gente tivesse dentro de um rio. Só que a gente não tá dentro do rio. A gente está num estuário que deveria ter uma salinidade em torno de 26%, 28%”, afirma Marília.

O mangue de Iguape está agonizando: mais de 60% das árvores estão mortas; o normal seria 20%. A equipe da professora também mede a quantidade de sal na lama.

Mangue saudável e como fonte de trabalho.

Em Cananéia, cidade vizinha de Iguape, a imagem é diferente: botos no estuário, guarás na lama, ostras nas raízes das árvores. Não precisa nem ser especialista para dizer que este é um ambiente equilibrado.

“O mangue com saúde é um mangue que produz alimento, que abriga filhotinho de peixe, abriga camarão, abriga caranguejo, e na verdade, são inúmeras espécies de peixes, então o mangue com saúde é um mangue que fornece alimento pra gente”, conta a professora.

No encontro das águas do estuário com o oceano, é onde estão os manguezais. Se o mangue está saudável, vai ter mais peixe. É por isso que na região de Cananéia, a pesca é tão forte.

O porto de Cananeia é um banquete: tem pescada, cabrinha, peixe-galo, corvina. O que é descarregado lá ajuda a abastecer o maior mercado consumidor de pescados do país: o estado de São Paulo.

Não dá para saber quanto foi pescado no próprio litoral paulista, já que as embarcações têm licença para trabalhar também em outros estados do Sudeste e do Sul, mas é seguro dizer que as áreas mais preservadas são as mais disputadas.

“As pessoas às vezes olham aqui: ‘ah, mais tem mero, tem garopa, tem…Tem! Eu tô vendo isso na praia’. Mas a quantidade que tem é muito inferior à que antigamente existia. Para essa quantidade se manter a pescaria em cima não sustenta a população”, afirma Jocemar Mendonça, do Instituto Pesca.

Na briga pelo peixe, existe uma preocupação com o pescador artesanal, como seu Durvalino Alves. A maioria do povo daqui vive de pesca, né? Porque não tem emprego”, conta.

Mangues ameaçados.

Seu Deivid hoje pilota barcos pelos rios e canais de Santos e São Vicente, mas ele começou a trabalhar catando caranguejo nos manguezais. “Atualmente é inviável existir uma área de proteção ambiental, pois os mangues foram tomados por ocupações irregulares, com pessoas que jogam na água, lixo e esgoto”. A sujeira chega até nos manguezais mais distantes das casas.

No município de Bertioga tem o manguezal do Itapanhaú, que é preservado, mas também ameaçado pela presença humana.

O risco é o mangue encolher de tamanho e de função. Não só ambiental, mas também social.

De acordo com a gestora da Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Centro, Maria de Carvalho, a população da região depende do manguezal de uma forma direta. “A questão da crise econômica que o Brasil vem atravessando e o alto índice de desemprego afetou a região. Hoje a gente tem um aumento substancial de pessoas que vêm utilizando o manguezal para se sustentar. E tem a função social também do mangue fomentando a atividade pesqueira lá fora. Então, se o mangue não consegue proporcionar, proteger esses recursos pesqueiros para que eles retornem no mar, a atividade pesqueira lá no mar também terá um grande declínio”.

É mais uma ameaça à vida marinha e a de milhares de pessoas que dependem do que acontece debaixo das árvores no mangue. 

https://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2019/09/13/expedicao-mostra-diferencas-entre-manguezais-saudaveis-e-degradados-pela-acao-humana.ghtml

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